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October, 2005 Pensamos, às vezes, que não restou
um só dragão.
Não há mais qualquer bravo cavaleiro, nem uma única
princesa a passear por florestas encantadas.
Pensamos. às vezes, que a nossa era está além das fronteiras,
além das aventuras. Que o destino
já passou do
horizonte e se foi para sempre.
É um prazer estar enganado.
Princesas e cavaleiros,
encantamentos e dragões, mistério
e aventura... não apenas
existem aqui e agora,
mas também continuam a ser
tudo o que
já existiu nesse mundo!
Em nosso século, só mudaram de roupagem. As aparências
se tornaram tão insidiosas, que princesas e cavaleiros
podem se esconder um dos
outros, podem se
esconder até de si mesmo.
Contudo, os mestres da realidade ainda nos encontram em
sonhos para dizer que nunca perdemos o escudo de
que precisamos contra os dragões,
que uma descarga de fogo azul
nos envolve agora, a fim
de que possamos mudar
o mundo como desejarmos.
A intuição sussurra a verdade!
Não somos poeira, somos magia!
Feche os olhos e siga sua intuição. May, 2005 Deparei-me com um anjo na rua, ele me contou de meus sentimentos, tentei ludibriá-lo, e dizer que se enganou de pessoa, mas ele me disse que eu o chamava, pois meu coração estava sofrendo, e eu não daria conta disso.
ele me falou de amores passados, disse que eu não sofresse tanto, e mais uma vez eu disse que nunca sofreria por isso, ele balançou a cabeça e riu, pensei que tivesse caçoando de mim, fiquei zangado, mas ele me disse, pra que eu ser uma pessoa que eu não sou? por que eu demonstrava dureza, se em meu coração imperava a meiguice? eu ri dele no momento e disse que no lugar do meu coração tinha uma pedra, ele riu de novo, e disse que era uma pedra de gelo, e que com a aproximação da pessoa certa, esse gelo derreteria, mas eu disse que me bastava sozinho, e ele mais uma vez retrucou e me corrigiu, disse que eu precisava de alguém, alguém que estava bem perto, e que meu orgulho não deixava eu perceber, disse para eu notar ao meu redor, disse para eu dar chance outra vez para o amor, então perguntei onde estava esta pessoa, queria realmente encontrá-la... e meu anjo terminou, procure-a no lugar certo, em primeiro lugar, ache-a dentro de seu próprio coração.
April, 2005 Dizem que há na alma dos seres humanos quatro gigantes que acompanham a evolução. Três destes colocam obstáculos, e apenas um abre as portas. Os três gigantes criadores de problemas chamam-se: medo, ira e dever. Medo é um gigante enraizado profundamente, que se alimenta da necessidade de preservar a vida ante o perigo, mas que se alia com a imaginação e cria neuroses que são capazes de paralisar completamente a vida de uma pessoa. Ira, é um gigante destrutivo, que se alimenta da reação normal de uma pessoa ante o medo, mas por ser normalmente abafado e recalcado acaba criando o ódio,que é uma raiva em conserva, podendo consumir uma pessoa por dentro até matá-la. Dever, é um gigante que entulha o caminho das pessoas com muitas obrigações, podendo esmagá-las com tantas destas que acaba produzindo tédio e imobilidade. Quem poderia abrir todas as portas é o gigante amor, mas raramente alguém o utiliza, porque amar não é algo que acontece do dia para a noite. Acontece numa dimensão que resulta do esforço para abrir o coração e entregar ao mundo o que haja de melhor na alma de quem assim se atreva a viver... March, 2005 Apetece-me hoje Uma historieta de demônios. Com os seus nomes católicos, Suas vestes de lama. Suas unhas vermelhas Rabos antropomórficos, Seus bigodes de leite, Seus risos e seus segredos, Sua má-fama, Seus cascos de bode. Apetecem-me Os exércitos de Astaroth. Grão-general Dos esquadrões da Morte. Apetece-me a cozinha Nouvelle Vague e pachorrenta Do meu íntimo Nisroth. Com seus Venenos saudáveis, Com seus Bolinhos de sorte. Apetece-me a bonomia Bolachuda de Behemoth. Apetece-me esta rima Fácil e forte. Apetecem-me: Demônios indianos. As minhas listas de entidades Intermináveis com a juventude. Apetece-me o Sublinhado vermelho Dos cadernos de carne salgada. Apetece-me apontar os pactos Para não lhes perder a conta. Apetece-me o refúgio infernal. Apetece-me um caldo, A solenidade de um ritual. Apetece-me Rafael caído. Partido aos pedacinhos. Apetece-me que O cão Cérbero Coma tudo até o fim Como eu lhe ensinei... Assim... muito bem assim... Apetece-me o pentagrama. O sangue quente No interior da chama. Apetece-me a missa vermelha, O sexo gratuito, O baptismo. Apetece-me até, um dia destes, Convidar Cristo! Apetece-me a conferência. Apresentar-me Sem coerência. Com loucura pelos ombros E uma pele de animal místico. Apetece-me o calor, Por favor: uma quintessência bem gelada! Apetece-me atirar Uma pedra no ar, Sem mais! Comprovar a teoria Dos lugares naturais. Apetece-me o estigma A jorrar confettis por todo o lado. Apetece-me Leviatã, O seu beijo molhado. Apetecem-me as Várias prostitutas infernais Num jogo de cabras cegas. Ai! Apetece-me um athamé Que rompa todas as celas. Apetece-me o limão Para escrever uma mensagem. Apetece-me Pazuzu Para me levar numa viagem. Apetece-me o genocído selectivo. Eu ser o dedo no botão. Apetece-me ser o burro A perseguir a cenoura. Apetece-me a serpente, Todo o anjo demente. Apetece-me o ácido e a corrosão. Apetece-me estrangular-te, Espalhar-te por toda parte. Apetece-me o Poeta, Apetece-me o Esteta. Apetece-me o Demonólogo, Seu filho Antropólogo. Apetece-me jogar No número da Besta E ganhar. O que eu não daria Para dançar E para vestir Tão bem quanto o Diabo. Agora a sério: Apetece-me o labirinto. A morte. A descida. Apetece-me ser Demônio _ Dispensar toda E qualquer espécie De vida. O último poema do livro de Fernando Ribeiro é : "Como escavar um abismo" Três facadas pontuais e certeiras direitas ao assunto. Deixar o sangue correr e bebê-lo no bar maldito mais próximo na companhia dos teus melhores amigos. March, 2005 Noite melancólica. Meu Deus, eu não sabia como a vida poderia ser tão solitária. Meu quarto sombrio está tomado por tons azulados provocados pela luz que vem da cidade, entrando pela janela aberta. Estou cheio de desesperança, sinto-me ainda mais sem vida do que ontem. O pouco de poesia que ainda há em mim é feito de dor. Tudo que me resta são os acordes do instrumento que me acompanhou por todos esses anos. Minha guitarra. Recostada sobre minha perna, eu a toco com calma dentro deste quarto de apartamento que fica no terceiro andar. Mesmo estando tão escuro, não preciso enxergar as cordas; os dedos já conhecem as notas da tristeza que compõe a música deste coração. O som se faz, vibrando com a ajuda da pedaleira, programada com a minha distorção mais querida. O som agudo, ecoante, ressonando nas paredes em uma freqüência que parece entrar na alma, elevando o espírito. A brisa está entrando, as cortinas se elevam, inflando como as velas de um barco. Uma nota maior, outra nota menor; escorrego os dedos subindo pela pequena corda, dando uma tremidinha no final. Fecho os olhos. Agora um grave. Sim! Um grave rulfante, pesado, ensurdecedor! Volto ao meu amado agudo. A brisa da janela chega um pouco mais forte. Vou abrindo os olhos. Chego à conclusão de que devo estar delirando novamente. Vejo um anjo entrando pela minha janela. Mesmo parecendo tão real, não me assusto e continuo tocando. Nossa! Como ela é linda! Seus cabelos negros e encaracolados contrastando com sua roupas brancas, esvoaçantes, quase transparentes. Ela se move lentamente, parecendo dançar, sorrindo pra mim de um jeito malicioso, olhando-me com aqueles olhos negros brilhantes, tão vívidos. Ela os esconde por trás das pálpebras, fechando-as. Tão clara é sua pele que parece absorver a luz azulada. Meu corpo vai sendo tomado por uma letargia, minhas mãos se mexem sozinhas; não preciso mais pensar nas notas, os dedos apenas seguem com a melodia. Ela joga a cabeça para trás, rodando os quadris lentamente; vem dançando para mim; é a odalisca de meus sonhos, movimentando-se como uma serpente. A cabeça vem e vai, ela ondula os braços como as ondas do mar. Ela chega bem perto e põe os dedos debaixo de meu queixo, fazendo uma leve pressão, obrigando-me a levantar. Fico de pé à sua frente, entorpecido com seu olhar. Ela me beija com seus lábios vermelhos, carnudos, de textura aveludada. Seu corpo não encostou no meu, acho que é por causa da guitarra. A música não pára e ela continua a dançar; vai girando à minha volta até chegar às minhas costas. Ela encosta a cabeça na minha nuca, envolvendo com seus braços a minha cintura, apertando-a com delicadeza. Ela começa a beijar a minha nuca, meus ombros, e vai subindo até o pescoço. Meus dedos tocam ferozmente a guitarra, posso ouvir o som trepidando na janela. Ela dá uma mordidinha na minha orelha e vai escorregando a língua até o pescoço; ela o beija com seus lábios macios. Em seguida, sinto uma fisgada que faz meu corpo todo formigar, tornando-se uma onda de prazer dormente. O quarto roda. Não consigo gritar, algo me domina, minha cabeça cai para trás, sinto-me fraco. Os cabelos dela deliciosamente arrastando-se na minha bochecha. Quero! Mas não consigo parar de tocar! Acho que vou cair! Mas ela me agarra! Ela me segura! Ela me sustenta! Ela me domina! Ela é que me faz tocar! Tudo à minha volta, de repente, nubla; todas as coisas as coisas parecem estar borradas. Estou sem forças. O som se distorce, um barulhão vem à tona, a guitarra caiu no chão. E, de repente, só ha o silêncio. Sinto que ela me deita no chão, ouço seus passos se distanciando e o zumbido da aparelhagem ligada. Acho que desmaiei. Tentei levantar quando o sol bateu na minha cara, senti que a guitarra estava ao meu lado. O cabo e a pedaleira ainda estavam ligados.Quando consegui levantar, lavei o rosto e, olhando-me no espelho, vi uma mancha roxa na minha garganta. – Caramba, mais que diabos é isto?! Ouvi alguma coisa apitar. Era o relógio que já marcava dez horas. Vesti alguma coisa e fui correndo para o trabalho.Quando voltei, já era noite. Grudado na porta, havia um bilhete reclamando do barulho, mas não dei muita atenção; afinal, não era a primeira vez. Joguei o papel por cima dos ombros e fui logo para o chuveiro. Enquanto me secava, depois do banho, entrei no quarto e vi a guitarra largada no chão. Subindo pela minha espinha, senti um arrepio percorrer todo meu corpo; um flash de memória apareceu na minha cabeça: era o rosto dela. Peguei a guitarra no chão, sentei em cima da caixa de som e pensei: Ora! Afinal, por que não?! Pelado mesmo, liguei tudo de novo; o zumbido se fez presente outra vez, eu me estiquei e, com os dedos, apaguei a luz. Devagar, meus olhos se acostumaram com a luz branda que dava um tom azulado a tudo. Ajeitei a guitarra na perna, respirei fundo e as palavras escaparam de minha boca antes da primeira nota: – Será que ela volta? Tomara!!! Sorri, levantando uma das sobrancelhas, e, em seguida, comecei a tocar. March, 2005 "Por mim se vai das dores á morada, Por mim se vai ao padecer eterno, Por mim se vai gente condenada. Moveu justiça o autor meu sempiterno, Formado fui por divina possança Sabedoria suma e amor supremo. No existir, ser nenhum a mim se avança Não sendo eterno, e eu eternal perduro: DEIXAI, Ó VÓS QUE ENTRAIS, TODA A ESPERANÇA...
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